PLANO GERAL DA QUESTÃO 84 DA PRIMEIRA PARTE DA SUMA DE TEOLOGIA
A questão oitenta e quatro é, no dizer de R. J. Henle, “uma obra escrita notável” e tem como tema o meio pelo qual a alma conhece as coisas corporais, dentro do tema mais geral que é o estudo dos atos da parte intelectiva da alma.
Divide-se em oito artigos que, paulatinamente apresentam a resposta de Tomás ao problema sobre como a alma unida ao corpo conhece o que lhe é corporal.
O artigo primeiro coloca o problema da própria possibilidade do conhecimento intelectual dos corpos. Essa questão é respondida afirmativamente. Passa-se, então, a examinar através do que se dá esse processo. Possibilidades são examinadas e afastadas.
O artigo segundo coloca uma alternativa: a alma conhece por sua essência ou por meio de determinações distintas de sua essência, ou seja por espécies? Escolhida a segunda possibilidade, trata-se de resolver o problema da origem dessas espécies.
O artigo terceiro examina a possibilidade dessas espécies serem inatas, o que é rejeitado.
O artigo quarto examina a possibilidade de essas espécies serem infundidas na alma por alguma forma imaterial separada, o que também é rejeitado.
Rejeitadas essas hipóteses negativas, passa-se à resposta afirmativa, nos artigos 5 e 6.
O artigo quinto pergunta se o intelecto intelige nas razões eternas e responde afirmativamente, seguindo a tradição agostiniana.
O artigo sexto torna essa resposta mais precisa, acrescentando que a origem desse conhecimento são os dados dos sentidos.
Os artigos quinto e sexto tomados conjuntamente apresentam a resposta de Tomás ao problema inicial,isto é, a alma conhece o que é corporal a partir dos dados dos sentidos, que é uma posição baseada em Aristóteles (portanto em oposição a Platão, que é a fonte dos agostinianos). É notável o modo como ele argumenta para não se afastar da tradição agostiniana, e é por isso que ele primeiramente afirma que a alma conhece nas razões eternas (artigo quinto), que é a posição agostiniana padrão.
Os dois artigos finais vão explicitar algumas consequências para a intelecção humana do fato dela ser dependente dos sentidos. O intelecto não pode inteligir sem sem se confrontar com as imagens ou fantasias (artigo sétimo) e sua operação fica impedida com o impedimento dos sentidos (artigo oitavo).
Em nenhuma outra passagem de sua vasta obra, Tomás apresenta de modo tão detalhado e articulado o seu pensamento sobre o tema do conhecimento intelectivo dos corpos, sobre o meio pelo qual a alma conhece o que lhe é inferior.
A posição de Tomás de Aquino é bastante clara e por ele mesmo definida como um caminho intermediário entre a solução dos primeiros filósofos materialistas e a solução platônica. Trata-se do caminho aristotélico. Avicena e Agostinho são associados com Platão e é sobretudo em contraste com este que Tomás formula sua doutrina. Ele chega mesmo a ser bem mais duro com Platão do que com os pré socráticos. O que não significa que ele transfira sua rejeição a Platão a Agostinho (cuja inspiração é platônica ou neoplatônica).
Muito pelo contrário. É curioso como Tomás se esforça para separar Agostinho de Platão, manifestando sua concordância com a doutrina agostiniana das razões eternas. O artigo quinto fornece uma interpretação dessa doutrina que a torna compatível com a doutrina aristotélica exposta no artigo seguinte, o sexto.
Tomás de Aquino considera que Agostinho e Aristóteles não estão falando da mesma coisa, uma vez que Agostinho refere-se à raiz última do conhecimento humano, que só pode ser buscada na fonte transcendente de todo ser e todo conhecer, isto é, Deus, onde “estão” as ideias eternas. Enquanto Aristóteles fala do processo imediato e concreto de nosso conhecimento intelectual.
Baseado na introdução de Carlos Arthur R. Nascimento, edição EDUFU.