Tomás de Aquino

Tomás de Aquino
O boi mudo da Sicília

domingo, 22 de novembro de 2009

Plano da Questão 85

PLANO GERAL DA QUESTÃO 85




Tema da questão: como os corpos são inteligidos e em que ordem se dá esse conhecimento.

Os artigos 1 e 2 ocupam-se do modo de intelecção e ligam-se ao problema, já tratado na questão 84,6, ou seja, da relação entre o intelecto e os sentidos. Nestes artigos tratar-se-á principalmente da abstração, a qual apenas se aludiu no artigo 6 da questão 84.

O intelecto humano conhece os corpos por meio de espécies, adquiridas a partir das imagens ou fantasias. Ora, em 85, 1-2, Tomás torna mais preciso o modo pelo qual tais espécies são adquiridas, o que vem a ser a abstração e o papel das espécies no conhecimento, isto é, as espécies são o meio pelo qual se intelige e não o que se intelige. O que o intelecto intelige, em última instância, são as coisas, isto é, os corpos naturais.

Os artigos 3 a 8 examinam vários aspectos relacionados ao desenrolar-se desse processo de conhecimento intelectual que podemos ter sobre os corpos. Esse conhecimento vai do particular ao universal ou vai do universal ao particular (art. 3)? Começamos por inteligir o uno ou o múltiplo (art. 4)? Basta uma intelecção simples ou temos necessidade de inteligir por composição e divisão (art. 5)? Como o erro pode se introduzir no nosso conhecimento intelectual das coisas materiais (art. 6)? A respeito dos graus possíveis de conhecimento, investiga-se como alguém pode conhecer algo melhor do que outrem (art. 7) e em que sentido inteligimos primeiro o divisível (art. 8).

O corpo do artigo 1 da questão 85 contém uma definição do que se entende por abstração: “conhecer o que está na matéria individual, não na medida em que está em tal matéria, é abstrair a forma da matéria individual, que as fantasias representam”.

O artigo 2 da questão 85 vai completar as informações sobre a espécie, que não foi suficientemente caracterizada ao longo da questão 84. A espécie é a forma de acordo com a qual provém a ação do intelecto, isto é, a forma de acordo com a qual o intelecto intelige; forma esta que é uma semelhança da coisa.

Um ponto importante que aparece nos argumentos dessa questão é a utilização do esquema aviceniano de natureza, segundo o qual a natureza, de si, nem requer nem exclui seja a individuação seja a universalidade, podendo ser de um modo ou de outro, o que já era suposto quando se mencionou a distinção entre o modo de ser e o modo de ser inteligido de qualquer coisa. Outro ponto importante é a distinção entre a espécie e o verbo mental (definição). Não se trata de uma mera repetição de Aristóteles, mas sim uma composição com a noção de verbo mental agostiniana.

Outros pontos que são apresentados nos conjunto dos artigos 3 a 8 são:

 - o conhecimento intelectual deriva do conhecimento sensível, portanto o conhecimento singular precede o universal; mas, no interior do conhecimento, seja intelectual seja sensível, procede-se sempre do mais geral ao mais particular.

- só se pode inteligir algo, uno ou múltiplo, na medida em que é uno, isto é, na medida em que cada intelecção supõe uma espécie, tudo o que puder ser apreendido nesta espécie será inteligido e exclui-se a possibilidade de intelecções simultâneas.

- dado o caráter parcelar de nossa intelecção, é preciso compor um apreendido com outro ou dividi-lo e passar de uma composição a outra, isto é, raciocinar.

- o erro só pode se produzir no âmbito do processo de composição/divisão ou no raciocínio; jamais haverá erro na apreensão.

- as diferenças nas capacidades intelectuais entre as pessoas se explicam pela melhor disposição corporal e pela melhor disposição das virtudes inferiores (imaginação, cogitativa e imaginativa) de que necessita o intelecto.

Conhecemos primeiro o indivisível que é contínuo e o indivisível que é a espécie porque conhecemos primeiro de maneira confusa e só depois de maneira distinta, mas não o indivisível que não é divisível nem em ato nem em potência, que é conhecido apenas por privação da divisibilidade.

Baseado na Introdução do professor Carlos Arthur R. Nascimento, na edição EDUFU.

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