Tomás de Aquino

Tomás de Aquino
O boi mudo da Sicília

domingo, 22 de novembro de 2009

Plano da questão 84

PLANO GERAL DA QUESTÃO 84 DA PRIMEIRA PARTE DA SUMA DE TEOLOGIA



A questão oitenta e quatro é, no dizer de R. J. Henle, “uma obra escrita notável” e tem como tema o meio pelo qual a alma conhece as coisas corporais, dentro do tema mais geral que é o estudo dos atos da parte intelectiva da alma.

Divide-se em oito artigos que, paulatinamente apresentam a resposta de Tomás ao problema sobre como a alma unida ao corpo conhece o que lhe é corporal.

O artigo primeiro coloca o problema da própria possibilidade do conhecimento intelectual dos corpos. Essa questão é respondida afirmativamente. Passa-se, então, a examinar através do que se dá esse processo. Possibilidades são examinadas e afastadas.

O artigo segundo coloca uma alternativa: a alma conhece por sua essência ou por meio de determinações distintas de sua essência, ou seja por espécies? Escolhida a segunda possibilidade, trata-se de resolver o problema da origem dessas espécies.

O artigo terceiro examina a possibilidade dessas espécies serem inatas, o que é rejeitado.

O artigo quarto examina a possibilidade de essas espécies serem infundidas na alma por alguma forma imaterial separada, o que também é rejeitado.

Rejeitadas essas hipóteses negativas, passa-se à resposta afirmativa, nos artigos 5 e 6.

O artigo quinto pergunta se o intelecto intelige nas razões eternas e responde afirmativamente, seguindo a tradição agostiniana.

O artigo sexto torna essa resposta mais precisa, acrescentando que a origem desse conhecimento são os dados dos sentidos.

Os artigos quinto e sexto tomados conjuntamente apresentam a resposta de Tomás ao problema inicial,isto é, a alma conhece o que é corporal a partir dos dados dos sentidos, que é uma posição baseada em Aristóteles (portanto em oposição a Platão, que é a fonte dos agostinianos). É notável o modo como ele argumenta para não se afastar da tradição agostiniana, e é por isso que ele primeiramente afirma que a alma conhece nas razões eternas (artigo quinto), que é a posição agostiniana padrão.

Os dois artigos finais vão explicitar algumas consequências para a intelecção humana do fato dela ser dependente dos sentidos. O intelecto não pode inteligir sem sem se confrontar com as imagens ou fantasias (artigo sétimo) e sua operação fica impedida com o impedimento dos sentidos (artigo oitavo).

Em nenhuma outra passagem de sua vasta obra, Tomás apresenta de modo tão detalhado e articulado o seu pensamento sobre o tema do conhecimento intelectivo dos corpos, sobre o meio pelo qual a alma conhece o que lhe é inferior.

A posição de Tomás de Aquino é bastante clara e por ele mesmo definida como um caminho intermediário entre a solução dos primeiros filósofos materialistas e a solução platônica. Trata-se do caminho aristotélico. Avicena e Agostinho são associados com Platão e é sobretudo em contraste com este que Tomás formula sua doutrina. Ele chega mesmo a ser bem mais duro com Platão do que com os pré socráticos. O que não significa que ele transfira sua rejeição a Platão a Agostinho (cuja inspiração é platônica ou neoplatônica).

Muito pelo contrário. É curioso como Tomás se esforça para separar Agostinho de Platão, manifestando sua concordância com a doutrina agostiniana das razões eternas. O artigo quinto fornece uma interpretação dessa doutrina que a torna compatível com a doutrina aristotélica exposta no artigo seguinte, o sexto.

Tomás de Aquino considera que Agostinho e Aristóteles não estão falando da mesma coisa, uma vez que Agostinho refere-se à raiz última do conhecimento humano, que só pode ser buscada na fonte transcendente de todo ser e todo conhecer, isto é, Deus, onde “estão” as ideias eternas. Enquanto Aristóteles fala do processo imediato e concreto de nosso conhecimento intelectual.
 
Baseado na introdução de Carlos Arthur R. Nascimento, edição EDUFU.

Plano da Questão 85

PLANO GERAL DA QUESTÃO 85




Tema da questão: como os corpos são inteligidos e em que ordem se dá esse conhecimento.

Os artigos 1 e 2 ocupam-se do modo de intelecção e ligam-se ao problema, já tratado na questão 84,6, ou seja, da relação entre o intelecto e os sentidos. Nestes artigos tratar-se-á principalmente da abstração, a qual apenas se aludiu no artigo 6 da questão 84.

O intelecto humano conhece os corpos por meio de espécies, adquiridas a partir das imagens ou fantasias. Ora, em 85, 1-2, Tomás torna mais preciso o modo pelo qual tais espécies são adquiridas, o que vem a ser a abstração e o papel das espécies no conhecimento, isto é, as espécies são o meio pelo qual se intelige e não o que se intelige. O que o intelecto intelige, em última instância, são as coisas, isto é, os corpos naturais.

Os artigos 3 a 8 examinam vários aspectos relacionados ao desenrolar-se desse processo de conhecimento intelectual que podemos ter sobre os corpos. Esse conhecimento vai do particular ao universal ou vai do universal ao particular (art. 3)? Começamos por inteligir o uno ou o múltiplo (art. 4)? Basta uma intelecção simples ou temos necessidade de inteligir por composição e divisão (art. 5)? Como o erro pode se introduzir no nosso conhecimento intelectual das coisas materiais (art. 6)? A respeito dos graus possíveis de conhecimento, investiga-se como alguém pode conhecer algo melhor do que outrem (art. 7) e em que sentido inteligimos primeiro o divisível (art. 8).

O corpo do artigo 1 da questão 85 contém uma definição do que se entende por abstração: “conhecer o que está na matéria individual, não na medida em que está em tal matéria, é abstrair a forma da matéria individual, que as fantasias representam”.

O artigo 2 da questão 85 vai completar as informações sobre a espécie, que não foi suficientemente caracterizada ao longo da questão 84. A espécie é a forma de acordo com a qual provém a ação do intelecto, isto é, a forma de acordo com a qual o intelecto intelige; forma esta que é uma semelhança da coisa.

Um ponto importante que aparece nos argumentos dessa questão é a utilização do esquema aviceniano de natureza, segundo o qual a natureza, de si, nem requer nem exclui seja a individuação seja a universalidade, podendo ser de um modo ou de outro, o que já era suposto quando se mencionou a distinção entre o modo de ser e o modo de ser inteligido de qualquer coisa. Outro ponto importante é a distinção entre a espécie e o verbo mental (definição). Não se trata de uma mera repetição de Aristóteles, mas sim uma composição com a noção de verbo mental agostiniana.

Outros pontos que são apresentados nos conjunto dos artigos 3 a 8 são:

 - o conhecimento intelectual deriva do conhecimento sensível, portanto o conhecimento singular precede o universal; mas, no interior do conhecimento, seja intelectual seja sensível, procede-se sempre do mais geral ao mais particular.

- só se pode inteligir algo, uno ou múltiplo, na medida em que é uno, isto é, na medida em que cada intelecção supõe uma espécie, tudo o que puder ser apreendido nesta espécie será inteligido e exclui-se a possibilidade de intelecções simultâneas.

- dado o caráter parcelar de nossa intelecção, é preciso compor um apreendido com outro ou dividi-lo e passar de uma composição a outra, isto é, raciocinar.

- o erro só pode se produzir no âmbito do processo de composição/divisão ou no raciocínio; jamais haverá erro na apreensão.

- as diferenças nas capacidades intelectuais entre as pessoas se explicam pela melhor disposição corporal e pela melhor disposição das virtudes inferiores (imaginação, cogitativa e imaginativa) de que necessita o intelecto.

Conhecemos primeiro o indivisível que é contínuo e o indivisível que é a espécie porque conhecemos primeiro de maneira confusa e só depois de maneira distinta, mas não o indivisível que não é divisível nem em ato nem em potência, que é conhecido apenas por privação da divisibilidade.

Baseado na Introdução do professor Carlos Arthur R. Nascimento, na edição EDUFU.

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