Suma de Teologia – 1ª Parte - Questão 84 – Tomás de Aquino
Artigo primeiro
Se a alma conhece os corpos pelo intelecto
Tema: O meio pelo qual a alma conhece os corpos (coisas exteriores), isto é, o intelecto.
Objeções iniciais (Parece que não)
1)Segundo a autoridade de Agostinho (Solilóquios, II e Comentário literal sobre o Gênesis, XII), o que é corpóreo só pode ser visto pelos sentidos, o intelecto só percebe o incorpóreo.
2)A alma conhece os inteligíveis, enquanto os sentidos conhecem os sensíveis. A alma não conhece pelos sentidos o que é inteligível, portanto, não pode conhecer, pelo intelecto, o que é sensível.
3)O conhecimento intelectual é do necessário e imutável, os corpos não tem tais características.
Argumento contrário (Parece que sim)
1. Há ciência da natureza, e a ciência está no intelecto. Ora, se o intelecto não conhecesse os corpos, não haveria ciência deles.
Resposta
* A opinião dos primeiros filósofos: só há corpos, como estes são mutáveis, não podem ser conhecidos com certeza (Heráclito).
* Platão postula a existência das Ideias incorpóreas para salvar a certeza.
* Refutação de Platão:
1) não poderia haver conhecimento da matéria mutável;
2) a postulação em nada atinge o conhecimento dos sensíveis atuais.
* Causa do erro: considerar que a forma do inteligido deva subsistir eterna e imutável por assim se encontrar no intelecto.
* O recebido deve estar no recipiente a modo do recipiente (princípio). Portanto, a alma conhece os corpos pelo intelecto, com conhecimento imaterial, universal e necessário.
Respostas às objeções
1)Agostinho não se refere ao que é conhecido, mas ao pelo que conhecemos.
2)O intelecto possui uma capacidade superior ao sentido e opera de modo mais excelente.
3)Nada impede que haja ciência imutável do que é mutável, pois todo movimento supõe algo imóvel.
Artigo Segundo
Se a alma intelige os corpos por sua essência.
Tema: O meio pelo qual a alma conhece o corpo.
Objeções iniciais (Parece que sim)
1)Segundo Agostinho (De Trinitate, X), a alma intelige por semelhança; por sua essência forma tais semelhanças e conhece a a partir delas.
2)Segundo Aristóteles (De Anima, III), a alma é, de certo modo, tudo. De acordo com o princípio de semelhança (o semelhante conhece o semelhante).
3)Segundo Dionísio (Hierarquia Celeste, 12), o inferior está no superior de modo mais eminente, ora, a alma é superior ao corpo, a substância corporal existe de modo mais eminente na alma.
Argumento contrário (que não)
1)Segundo Agostinho (De Trinitate, IX), a mente recebe a notícia do corpóreo pelos sentidos, como os sentidos não conhecem a alma, a alma não conhece por si o incorpóreo, mas por meio dos sentidos.
Resposta
Os filósofos antigos, usando o princípio de que o semelhante conhece o semelhante e por estimarem que só existem coisas corporais, julgavam que o conhecimento da alma sobre o incorpóreo se deve ao fato de a própria alma possuir o mesmo princípio corporal. Platão sustentou, contra estes, que a alma é imaterial e o conhecido está nela imaterialmente. Os antigos não distinguiam entre sentido e intelecto.
Refutação. Argumento de Aristóteles contra Empédocles (De Anima, I). Algo não é conhecido senão quando está em ato, e por isso, não bastaria à alma possuir potencialmente o princípio material de tudo; precisaria possuí-los todos em ato, o que é impossível. Além disso, as coisas materiais que subsistem fora da alma também conheceriam o que tem princípio semelhante a si ( o fogo conheceria o fogo, por exemplo).
O que é material, ao ser conhecido, existe imaterialmente no cognoscente, a determinação do conhecimento opõe-se à determinação pela matéria. No conhecimento do que é corpóreo, o intelecto abstrai das condições materiais (dos sentidos, o mais cognoscitivo é o que menos depende da matéria, abstrai delas – a visão mais do que o tato, por exemplo). Somente Deus possui em sua essência as formas de tudo, só Ele intelige tudo por si, sem a ajuda dos sentidos, nem das espécies.
Respostas às Objeções
1)Agostinho fala da visão imaginária, formada pelas imagens dos corpos. A alma é o sujeito onde se formam as imagens (é nesse sentido que ela dá algo de si), conserva algo da imagem.
2)Aristóteles quer dizer que a alma está em potência para conhecer tudo (sentidos/intelecto).
3)Toda criatura é determinada e finita, a criatura superior não tem, de modo completo, a essência da criatura inferior. Somente Deus é uma semelhança de tudo.
Artigo Terceiro
Se a alma intelige tudo por espécies nela introduzidas naturalmente.
Tema: As espécies e seu papel na intelecção dos corpos.
Objeções iniciais (Parece que sim)
1)Segundo Gregório (Homilia da Ascensão) e o Livro das Causas, o homem tem em comum com os anjos, a inteligência; ora, a inteligência é plena de formas. Portanto, a alma conhece por meio de espécies inatas.
2)Como a matéria prima é criada em potência sob as formas, a alma intelectiva é criada sob as espécies inteligíveis.
3)Segundo Platão (Mênon), só podemos responder ao que sabemos, o que só seria possível se tivéssemos espécies inatas.
Argumento contrário: (Que não)
1)Segundo Aristóteles (De Anima, VII), o intelecto é como uma tabula rasa.
Resposta
O ser humano muitas vezes está em potência para um conhecimento e tal conhecimento é atualizado pelos sentidos, pelo aprendizado ou pela descoberta. Como a alma cognitivaestá em potência para todo o conhecimento, não tem, por natureza, as espécies; mas está em potência para elas conforme diz Aristóteles.
Platão, no entanto, sustenta que é o corpo que nos impede de conhecer em ato as espécies inteligíveis que estão naturalmente no intelecto.
Refutação: 1) se a operação natural do intelecto é inteligir as espécies, é incoerente que ele seja totalmente impedido disso pelo sentido e nem sequer se lembre que sabe; 2) a falta de um sentido (por exemplo, a visão)corresponde à falta de um conhecimento (das cores, por exemplo), o que não deveria ocorrer se todas as espécies fossem inatas.
Enfim, a alma não conhece por espécies inatas.
Respostas aos argumentos iniciais
1) De fato, a inteligência é algo em comum entre o homem e o anjo, mas falta ao homem a eminência da inteligência angélica.
2) A matéria prima tem de ser criada sob uma forma para que possa existir em ato, ficando em potência para outras formas, mas o intelecto não tem de ser pela espécie.
3) A ciência é causada na alma a partir de certos princípios.
Artigo Quarto
Se as espécies inteligíveis advém à alma a partir de formas separadas
Tema: Rejeição do conhecimento via formas separadas.
Objeções iniciais (parece que sim)
1)O que é por participação é causado pelo que é em essência. A alma participa do inteligível, o inteligível em ato é causa da intelecção. E é por essência forma existente sem matéria.
2)Assim como as espécies sensíveis são causadas por sensíveis existentes fora da alma, as espécies inteligíveis devem ser causadas por inteligíveis fora da alma, que são as formas separadas da matéria.
3)O que está em potência é conduzido ao ato por algo que está em ato. Portanto, há um intelecto que está sempre em ato que é causa da intelecção e é um intelecto separado.
Argumento contrário ( que não)
1)Se assim fosse, não haveria necessidade dos sentidos para inteligir, o que é falso.
Resposta
Platão sustentou a existência de formas separadas, sem matéria (homem por si, cavalo por si, etc.)
Por participação essas formas seriam causas do ser e do conhecimento dos sensíveis, as espécies inteligíveis são semelhanças das Ideias, que são origem das definições e das ciências.
Segundo Avicena, as espécies inteligíveis subsistem nos intelectos separados, não por si, e desde o primeiro intelecto se transmite ao intelecto agente, do qual advém à alma e à matéria corporal. Além disso, tais espécies não permanecem no intelecto, ao contrário do que diz Platão.
Mas essa postura não explica por que a alma estaria unida ao corpo, uma vez que não dependendo dele para ser, não dependeria para sua operação própria; o corpo seria inútil.
Para estes, os sentidos despertariam a alma, adormecida por causa da sua união com o corpo. O que não explica a causa dessa união.
Os sentidos despertariam a alma para voltar-se ao intelecto agente (Avicena) e receber as espécies. Mas, sendo assim, nada impediria que os sentidos despertassem a alma para espécies sensíveis dos quais alguém não possuísse o sentido (uma pessoa cega poderia conhecer as cores), o que é falso.
Respostas às objeções
1.As espécies inteligíveis tem como causa primeira um princípio inteligível, que é Deus. Mas dEle procedem por causas segundas (mediadas), por meio das formas das coisas materiais (Dionísio).
2.As coisas materiais são sensíveis em ato, mas não inteligíveis em ato, o que mostra a diferença entre o sensível e o inteligível.
3.O intelecto agente, que conduz da potência ao ato nosso intelecto possível é uma capacidade de nossa alma, não um intelecto subsistente separado (ver quetão 79, art. 4).
Artigo Quinto
Se a alma intelectiva conhece as coisas materiais nas razões eternas.
Objeções iniciais (que não)
1.Como a alma não pode conhecer Deus nesta vida (unida ao corpo), onde estão as razões eternas, não pode conhecer as coisas nas razões eternas. (segundo Dionísio, na Teologia Mística, “nós nos unimos a Deus como a um desconhecido, ignorado”)
2.O que é invisível de Deus (as razões eternas) são conhecidos pelo que é material e não o inverso (o material conhecido pelas razões eternas), conforme diz Paulo Rom 1,20.
3.As razões eternas são uma outra forma de entender as Idéias de Platão, o que já foi refutado, conforme a autoridade de Agostinho nas 83 questões.
Argumento contrário (que sim)
1.Percebemos objetivamente que algo é verdadeiro não por que a verdade está em uma pessoa ou outra, mas porque paira acima dos intelectos, nas razões eternas, segundo Agostinho, Confissões, XII.
Resposta
Segundo Agostinho (A doutrina cristã), deve-se reter dos filósofos o que é verdadeiro e de acordo com a fé, mas repudiar o que está em desacordo com a fé.
A opinião platônica sobre as Ideias era conhecida por Agostinho.
Por ser contrária a fé, a opinião que sustenta a subsistência por si dessas substâncias criadoras deve ser modificada no sentido em que as razões de todas as criaturas existem na mente divina, princípio de ser e de conhecimento para as coisas.
De certo modo não conhecemos nas razões eternas, porque as vemos, e de certo modo conhecemos, na medida em que elas são a fonte de onde tudo emana e participamos da luz incriada por nossa luz intelectual. Pela própria marca da luz divina, tudo nos é mostrado (a imagem do Sol, citação do salmo 4 – pela própria marca da luz divina, tudo nos é mostrado).
Além da luz intelectual, precisamos das espécies inteligíveis para conhecer as coisas materiais, como Agostinho diz no livro IV Sobre a Trindade.
Também no livro das 83 Questões, Agostinho diz: “as razões eternas só podem ser vistas pelas almas bem aventuradas, em nosso estado atual de viajantes vemos nas razões eternas apenas como causas primeiras”.
Tomás considera desnecessário responder aos argumentos contrários, já respondidos no corpo da resposta.
Artigo Sexto
Se o conhecimento intelectivo é recebido das coisas sensíveis
Objeções iniciais
1)O fluxo contínuo do sensível, as sensações durante o sono, segundo Agostinho, 83 questões.
2)A alma é mais nobre do que o corpo, por isso este não pode produzir uma imagem na alma, segundo Agostinho, Comentário literal sobre o Gênesis.
3)O efeito não se estende além da virtude de sua causa, mas o intelecto se estende além do sensível.
Em sentido contrário
1)O princípio do conhecimento é o sentido. Aristóteles, Metafísica A e Segundos Analíticos II,19.
Resposta
A opinião materialista (ou atomista), de Demócrito: o conhecimento se dá por imagens e emanações, o sentido é modificado pelos sensíveis. (fontes Agostinho e Aristóteles).
Platão diferencia intelecto e sentido, o primeiro é imaterial e, portanto, não pode ser modificado pelo sentido e nem o próprio sentido é modificado pelo sensível, mas só os órgãos externos o são, o que leva a alma a despertar e formar as espécies sensíveis.
O caminho intermediário de Aristóteles: distinção entre sentido e intelecto, mas aceita que o sensível cause algo no conjunto corpo/alma por certa operação, não pelo influxo de átomos.
Mas o intelecto possui uma operação sem comunicação com o corpo, além da impressão dos sensíveis, a operação intelectual necessita do intelecto agente, é ele que torna inteligíveis as imagens recebidas dos sentidos, por abstração.
Os sentidos, afetados pelas coisas, provocam as fantasias, que são a matéria a a partir da qual o intelecto agente modifica o intelecto possível.
Respostas às objeções
1)Agostinho quer dizer que a verdade não deve ser totalmente esperada dos sensíveis.
2)Concorda com Aristóteles em que os corpos não imprimem suas semelhanças diretamente na faculdade imaginativa, o intelecto agente é que faz isso. Além disso, o corpo sensível é mais nobre do que o órgão do sentido (o que está em ato/o que está em potência). A operação da alma pela qual compõe e divide forma as diversas imagens. Agostinho referia-se a isso.
3)O conhecimento sensível não é causa suficiente do conhecimento intelectual, por isso o conhecimento intelectual pode se estender além do sensível.
Artigo Sétimo
Questão: Se o intelecto pode inteligir em ato pelas espécies inteligíveis sem se voltar às fantasias.
Objeções iniciais (que sim)
1.Como o intelecto torna-se ato pela espécie inteligível, essa é uma condição suficiente para ele inteligir, sem necessidade das fantasias.
2.A imaginação depende do sentido, mas pode imaginar sem ele. Assim também e com muito mais razão, o intelecto pode inteligir sem as fantasias.
3.Como não há fantasias dos incorporais, não poderíamos inteligir o que é incorporal se o intelecto dependesse das fantasias, mas isso é patentemente falso (podemos entender o que são os anjos, a verdade, Deus,etc.)
Argumentos contrários (que não)
1. A alma nada intelige sem as fantasias. (Aristóteles, De Anima, III)
Resposta
- É impossível ao nosso intelecto na vida presente, intelige em sem voltar-se para as fantasias.
- Consideremos a hipótese de que o intelecto não se serve dos órgãos corporais. Sendo assim, ele não deveria ser impedido em seu ato de inteligir por alguma lesão no órgão corporal. Mas como isso de fato ocorre (como exemplo, os delirantes e os letárgicos), a causa está em que ele se utiliza da imaginação, que se serve dos órgãos corporais.
Outro indício são as fantasias formadas para servir de exemplo quando alguém se esforça para inteligir algo ou para ensinar algo a outrem.
A potência cognoscitiva é proporcional ao cognoscível. A natureza humana é unida ao corpo e, por esse fato, só é capaz de inteligir naturezas unidas ao corpo, abstraindo o universal dos particulares, e apreende o particular pelo sentido e pela imaginação. Daí ser necessário, para a intelecção que o intelecto se volte para as fantasias, a fim de discernir o universal no particular. Não precisaríamos das fantasias se a natureza das coisas subsistisse separadas delas (como querem os platônicos) ou se o objeto próprio de nosso intelecto fosse a forma separada, como é o caso do intelecto angélico.
Respostas às objeções
1.As espécies existem no intelecto possível a modo de hábito; para inteligir em ato, é preciso voltar-se para elas, mas não se pode ver as espécies sem voltar-se para as coisas de que são espécies.
2.A própria fantasia já é uma semelhança da coisa, por isso a imaginação não depende sempre do sentido para imaginar a coisa, mas o intelecto sempre precisa da fantasia para inteligir o inteligível.
3.Nós só conhecemos o incorpóreo por comparação com o corpóreo, isto é, não diretamente. Deus, por exemplo, só pode ser conhecido por ultrapassamento ou remoção (Cf. Dionísio).
Artigo Oitavo
Questão: se o intelecto é impedido de inteligir em virtude de um impedimento dos sentidos.
Objeções iniciais (que não)
1.Como o intelecto é superior ao sentido, sua operação não pode ser impedida pelo impedimento do sentido.
2. Aristóteles diz (De senso et sensatu) que se pode argumentar por silogismos em sonho. Ora, fazer silogismos é um ato do intelecto, que, nesse caso não é impedido pelo impedimento dos sentidos (quando dormimos, nossos sentidos estão “desligados”).
Argumentos contrários (que sim)
1.Agostinho (Comm. Litt. Ad Gen) diz que não podemos pecar durante o sono. Ora, isso não seria possível se , durante o sono, tivéssemos o uso do intelecto. Portanto, o uso da razão fica bloqueado quando o sentido está desligado.
Resposta
O objeto próprio do intelecto humano é a natureza da coisa sensível (quididade).
Não é possível o juízo perfeito sobre a coisa sensível sem o conhecimento sensível.
Tudo o que conhecemos, no presente estado, conhecemos por comparação com as coisas sensíveis.
Sendo assim, é impossível o juízo perfeito se o sentido estiver “desligado”, pois é por ele que conhecemos o sensível.
Respostas às objeções
1.O objeto primeiro do intelecto é recebido a partir das coisas sensíveis; sendo assim, embora superior ao sentido, ele precisa da ação do sentido para operar.
2.Embora seja verdade que é possível silogizar em sonho, o juízo do intelecto nunca é totalmente liberado durante o sono. De acordo com a fisiologia de cada pessoa, o sentido comum e a imaginação podem libertar-se mais ou menos, conforme a profundidade do sono (as imagens formadas durante o sonho são mais coerentes quando o sono é mais leve). O fato é que o discernimento das coisas, durante o sono, nunca é perfeito, pois depende da consciência do sentido.