Notas para a aula de História da Filosofia Medieval 2 – dia 23 de setembro de 2009.
Tema: O Ser e sua necessidade (Gilson, O espírito da filosofia medieval, capítulo 3)
- Condorcet (adversário dos padres): “ Devemos aos escolásticos noções mais precisas sobre as idéias que podemos formar do Ser supremo e seus atributos, sobre a distinção entre a causa primeira e o universo que ela supostamente governa; sobre a distinção entre o espírito e a matéria, sobre os diferentes sentidos que podemos dar à palavra “liberdade”, sobre o que se entende por criação, sobre a maneira de distinguir entre si as diversas operações do espírito humano e classificar as idéias que ele tem dos objetos reais e de suas propriedades”
Citado por Gilson, EFM, pg. 53
- O Ser supremo: em primeiro lugar, essa idéia remete ao fato de que só há um ser que merece o nome de Deus e que o nome próprio de Deus é Ser. Ou seja, só Deus é ser em sentido próprio.
- Problema nº 1: a filosofia grega pôde transmitir aos pensadores medievais o monoteísmo (idéia de um Deus único)?
- No cristianismo, o monoteísmo ocupou uma posição central e se impôs como o princípio dos princípios.
- Xenófanes, Empédocles, Filolau e Plutarco: afastam o antropomorfismo da religião grega, mas mantém o seu politeísmo.
- O Timeu, de Platão: esforço considerável para elevar a noção de deus à causa do universo, mas mantém o deus (Demiurgo) criador como um deus superior entre outros deuses.
- Aristóteles: jamais se manteve, em suas convicções pessoais, longe do politeísmo tradicional; sua filosofia contribuiu para a noção de Deus do cristianismo e é surpreendente que ele não a tenha atingido por si só.
- O motor imóvel: não ocupa no mundo de Aristóteles o lugar único reservado ao deus da Bíblia, o primeiro motor imóvel não é o único. (citação de Física, VIII – EFM pg. 57)
- O pensamento grego não alcançou essa idéia essencial que a Bíblia comunica: “Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus é o único Deus” (Dt 6,4)
- Platão: o grau de divindade é proporcional ao grau de ser; o ser mais divino ´e o ser mais ser”. Mas, para um cristão não há “graus de divindade”.
- Intérpretes de Platão (até mesmo cristãos, nota 10, EFM, pg. 62) esforçaram-se para aproximar do Deus cristão a noção do divino em Platão, ora identificando-o com o Demiurgo, ora com a idéia de Bem ora tentando reuni-los num único ser, mas sem saber o que fazer com a divindade das Ideias (a de Bem, inclusive)
- Aristóteles: o “ser enquanto ser”, objeto da metafísica, parece um conceito capaz de superar a noção politeísta de divindade, própria do pensamento grego; substância necessária e sempre em ato, separado da ordem dos seres em potência.
- Tomás de Aquino e Aristóteles: Tomás entende que Aristóteles compreendeu claramente que Deus é, “entre todos os seres, aquele que merece por excelência o nome de ser, mas seu politeísmo o impediade conceber o divino como outra coisa que não o atributo de uma classe de seres” (EFM, pg. 65).
- O ser necessário de Aristóteles é coletivo, o Ser necessário dos cristãos é um só, Deus.
- A revelação: “Eu sou aquele que é. Vá e diga aos filhos de Israel: aquele eu é me mandou até vós” (Ex 3,14).
- A partir da revelação do êxodo, bem cedo se constitui, no âmbito do pensamento cristão uma metafísica baseada no Êxodo.
- Ser e essência: Deus é o único cuja essência (o ser) é idêntica à existência.
-“Só há um Deus e esse Deus é o ser; é essa a pedra angular de toda a filosofia cristã, e não foi Platão,; nem mesmo Aristóteles; foi Moisés quem a colocou ali” (EFM, pg. 69)
- Duns Scot: a partir da crença em Deus como ser, deseja saber o que é o ser. (Citação em EFM, pág. 69-70)
- Ao se apresentar como o Ser, Deus nos faz percebê-lo através de um conceito, o conceito de ser, existir, mas esse conceito é um “fraco análogo” apenas de uma realidade que excede o conceito.
- Agostinho: “o que não é de algum modo, mas o que é, é” (Confissões, XIII, 31, 46)
-São Jerônimo: Deus é a causa de sua própria substância. Não entender isso como Descartes, como se Deus, por sua onipotência se colocasse no ser, porque não se deve buscar fora de Deus a causa de sua existência.
- A perfeição: como é o ser por excelência, a plenitude da existência está completamente realizada em Deus, Deus é perfeito pois nada se pode acrescentar ao que ele é.
- O primado do ser do Deus cristão excede o primado do Bem do pensamento grego. “Deus não é porque é perfeito, mas é perfeito porque é” (EFM, pg. 74)
- A infinitude: a perfeição do ser exclui todos os limites; assim, Deus é eterno e imutável, mas não se esgota na contemplação de si mesmo e sim se expande, numa infinitude positiva.
- Sendo pura indeterminação, nenhum conceito pode aplicar-se adequadamente a Deus, pois seria limitálo. Portanto, Deus tem a infinitude como uma de suas características principais exprimir.
- Duns Scott; é a mesma coisa provar a existência de Deus e provar a existência de um ser infinito. (EFM, pg. 76).
- Os gregos não identificam Deus com o Ser, por isso é impossível para eles deduzir da idéia de Deus a sua existência.
- Santo Anselmo: perguntar-se se Deus existe é perguntar-se se o Ser existe, negar a existência de Deus é negar a existência do ser (o argumento ontológico).
- Descartes e Malebranche : prolongamentos do “argumento ontológico” na filosofia moderna, da idéia de Deus em nós, passa-se à existência de Deus.
- Pensamento cristão medieval: primado metafísico do ser e identidade em Deus da essência e da existência.
- Dois caminhos a partir da relação entre a idéia de ser e a existência: confiar no valor ontológico da evidência racional (Anselmo, Descartes 5); ou 2) induzir a existência de Deus como única causa concebível da sua idéia (Agostinho, Descartes 3).