Tomás de Aquino

Tomás de Aquino
O boi mudo da Sicília

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Notas para aula 16/09 - parte 2

A noção de filosofia cristã

- O modo mais eficaz de resolver a questão sobre a filosofia cristã é perguntar aos homens cultos que aderiram ao cristianismo, sem renunciar de todo à filosofia por que fizeram isso.

- São Paulo: o Cristianismo não é uma filosofia, é uma religião que nos dispensa da filosofia (Carta aos Coríntios)

- Na verdade, Paulo propõe substituir a aparente sabedoria dos pagãos pela verdadeira sabedoria divina, que, aparentemente, é loucura..

- Quem possui a religião cristã já possui as artes e a filosofia, mas um filósofo há de querer mostrar isso (desenvolver a filosofia implícita na sabedoria divina).

- Justino : um homem busca a verdade apenas com a força da razão, e fracassa; a mesma verdade lhe é oferecida pela fé, ele a aceita e, tendo-a aceitado, acha satisfatória para a razão: a verdade filosófica adquirida por meios não filosóficos.

- Como os filósofos puderam conhecer muitas verdades antes proclamadas pela Bíblia?

- Fílon e Taciano: Os filósofos tiveram contato com a sabedoria do Antigo Testamento.

- São Paulo: A razão pode conhecer Deus, portanto, não é condenável. O espetáculo da criação nos faz conhecer Deus, em sua divindade e potência.

- São João: Jesus é o Verbo de Deus, ora, o Verbo é Deus e ilumina todo homem vivente; logo, todos podem conhecer Deus, com o uso da razão natural.

- Consequência: Tudo que se fez de mal no mundo, foi contra o Verbo, logo, tudo o que se fez de bom, foi pelo Verbo.

- A fé dispensa da filosofia.

}        “A fé em Cristo dispensa da filosofia e a revelação a suplanta, mas a suplanta apenas enquanto a consuma”

Gilson, EFM, pg. 35

- Sabedoria racional versus filosofia cristã.

}        1. O cristianismo não é apenas um simples conhecimento abstrato da verdade, mas um método de salvação.
}        2. Coerência das respostas cristãs dadas aos problemas filosóficos (a contradição dos filósofos).
}        3. Conhecimento acessível a todos os homens e não reservado apenas a uma elite de letrados.

- Lactâncio

}        O filósofo que dispões apenas da razão e quer descobrir a verdade por suas próprias forças só consegue apreender uma minúscula parte da realidade, imersa numa massa de argumentos contraditórios.
}        O cristão possui na fé um critério que lhe permite tomar a verdade racional em si mesma e libertá-la do erro, pois Deus, quem tudo fez é quem pode nos ensinar como é a realidade.

- Agostinho

}        A  sua busca pela verdade pariu do maniqueísmo, passa pelo ceticismo e desemboca no neoplatonismo.
}        Mas é a sua conversão ao cristianismo que lhe mostra que tudo o que há de verdadeiro no neoplatonismo, já está contido no evangelho de João ou no livro da Sabedoria.
}        A fé é útil até para garantir a racionalidade da razão.

- Anselmo

}        Nada deve se interpor entre os princípios racionais, de que se parte e as conclusões a que se chega (racionalismo?).
}        Como tal a fé se basta, mas aspira a transmudar numa inteligência de seu próprio conteúdo.
}        Sem depender da razão, a fé dá origem à razão.

- Maine de Biran

}        A razão apenas não basta à razão
}        Intellectus quaerens intellectum per fidem.
}        O conteúdo da filosofia cristã é o corpo das verdades racionais descobertas, aprofundadas ou salvaguardadas pela ajuda que a revelação deu à razão

- Fides quaerens intellectum

}        A fé não é um  tipo de conhecimento superior ao conhecimento racional, saber é superior a acreditar e a ciência é superior à crença.
}        A fé também não é como a premissa maior de um silogismo, pois se partimos da fé, a conclusão só pode ser um dado de fé.
}        A própria teologia, enquanto ciência, não pretende transformar em inteligência a crença a qual adere, pois destruiria seu objeto.

- Posições quanto à noção de filosofia cristã

}        Considerada em sua essência, abstraindo das condições de constituição e inteligibilidade, a filosofia não pode ser cristã ou muçulmana ou judaica.
}        Seria como pretender que houvesse uma medicina ou uma física cristã.
}        Considerando que a fé tem um papel regulador e considerando a pureza formal da filosofia, toda filosofia verdadeira é filosofia cristã, toda filosofia que apresente uma concepção de natureza aberta ao sobrenatural, é verdadeira e é cristã.
}        Uma filosofia aberta ao sobrenatural não seria necessariamente cristã.

- O que é filosofia cristã

                        “Toda filosofia que, embora distinga formalmente as duas ordens, considere a revelação cristã uma auxiliar indispensável da razão”

Gilson, EFM, pg.45

- Escolha entre problemas filosóficos

}        Por direito, o filósofo cristão é capaz de se interessar pela totalidade dos problemas filosóficos.
}        Mas se interessa por aqueles cuja solução é importante para a sua vida religiosa ou para a conduta da vida.
}        Eliminação da vã curiosidade
}        O conhecimento de Deus leva a um conhecimento de si mesmo

- Agostinho e Tomás

}        Tomada em si, uma filosofia deve sua verdade unicamente à razão (Agostinho)
}        A constituição de uma filosofia verdadeira só pode se completar com a ajuda revelação. (Tomás de Aquino)
}        Gilson parece inverter a ordem só para deixar claro o acordo entre esses dois gigantes.

- Conclusão

}        Deve-se buscar discernir na história a presença de uma ação exercida sobre o desenvolvimento da metafísica pela revelação cristã

Notas de aula 16/09

Notas para a aula de Filosofia Medieval 2 – UFU, 16 de Setembro de 2009-09-09


O problema da filosofia cristã.

- Posições racionalistas sobre a expressão “filosofia cristã”.


   1) nunca houve, historicamente, uma filosofia cristã, pois os filósofos cristão apenas produziram um pastiche, combinando Platão Aristóteles e outros expoentes da filosofia grega. (Émile Brehier)
   2) A filosofia, como produto da razão, é independente da religião, portanto a filosofia cristã é uma contradição. (Feuerbach).

- Os pensadores medievais. 


É possível um exercício da razão pura, tal como fizeram Platão e Aristóteles, mas é impossível não considerar a Revelação como um fato. Daí o princípio da filosofia medieval : a fé que busca o entendimento. A questão é se isso não arruinaria a própria filosofia enquanto tal.

- A Neoescolástica. Contemporâneos do racionalismo e não querendo negar-lhes os princípios tentam negar os fatos, mostrando que uma filosofia cristã foi de fato produzida, a de são Tomás de Aquino. Tal filosofia está, no entanto, subordinada à Teologia, que é a ciência superior. A teologia usa a razão para expor o conteúdo da fé ou evitar os erros; se a razão está de acordo com a fé, é porque é verdadeira, pois a verdade não pode contradizer a verdade. Mas a verdade da filosofia não se baseia na fé.

- O tomismo


Agostinianos de todos os tempos sempre criticaram tomismo como paganização do cristianismo, repreendendo-lhe o exagero na confiança à razão. Se uma filosofia é verdadeira, é por ser racional. Se for racional, não é por ser cristã. Deve-se escolher, então, entre a razão e a fé, ou então o tomismo não passaria de um aristotelismo corrigido, segundo a razão e não segundo a fé. A atitude racionalista dos neoescolásticos tem como consequência lógica a negação pura e simples da noção de filosofia cristã.

                        “ O agostinismo aceita uma filosofia cristã, contanto que ela se contente em ser cristã e renuncie a ser uma ffilosofia; o neotomismo aceita uma filosofia cristã, contanto que se contente a ser uma filosofia e renuncie a ser cristã: o mais simples não seria dissociar essas duas noções, a filosofia com a razão e o cristianismo com a religião?”

Gilson, EFM, pg. 14


- Negação da filosofia cristã partindo do fato que o Evangelho não tem nenhum conteúdo especulativo. 


O que seria conteúdo especulativo? Teríamos que desconsiderar os padres apostólicos, a primeira carta de João, o evangelho de João e a doutrina do verbo, a pregação de Jesus sobre o Pai Celeste. Se não há filosofia na Escritura, nada impede, a priori, que a Escritura não tenha influenciado a filosofia.

 - Uma possibilidade histórica. 


Filosofias produzidas após o período medieval que mostram a plausibilidade de uma intervenção do cristianismo no curso da história da filosofia ( a filosofia não teria passado, direto, dos gregos aos modernos):

1) Descartes: preocupação com as provas da existência de Deus e a noção de alma.
2) Malebranche: reivindica Aostinho e critica a Escolástica não por ser racionalista, mas por ser pouco religiosa.
3) Leibniz, Kant: especulações metafísicas segundo a agenda do cristianismo.
4) Montague: propõe substituir o folclore da Bíblia cristã com um conhecimento que já estava presente em são João e são Paulo (“o espírito de Deus como força e luz, e glória além do que tínhamos tido).

- Conclusão: 


Há razões históricas para pôr em dúvida a separação entre filosofia e religião após a Idade Média. Então, ou acreditamos que, um dia, a Metafísica cairá em desuso ou  continuará ainda por muito tempo. A primeira tarefa é perguntar aos prórios medievais que benefício traria para a razão a inspiração na Bíblia e no Evangelho.














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