Notas para a aula de Filosofia Medieval 2 – UFU, 16 de Setembro de 2009-09-09
O problema da filosofia cristã.
- Posições racionalistas sobre a expressão “filosofia cristã”.
1) nunca houve, historicamente, uma filosofia cristã, pois os filósofos cristão apenas produziram um pastiche, combinando Platão Aristóteles e outros expoentes da filosofia grega. (Émile Brehier)
2) A filosofia, como produto da razão, é independente da religião, portanto a filosofia cristã é uma contradição. (Feuerbach).
- Os pensadores medievais.
É possível um exercício da razão pura, tal como fizeram Platão e Aristóteles, mas é impossível não considerar a Revelação como um fato. Daí o princípio da filosofia medieval : a fé que busca o entendimento. A questão é se isso não arruinaria a própria filosofia enquanto tal.
- A Neoescolástica. Contemporâneos do racionalismo e não querendo negar-lhes os princípios tentam negar os fatos, mostrando que uma filosofia cristã foi de fato produzida, a de são Tomás de Aquino. Tal filosofia está, no entanto, subordinada à Teologia, que é a ciência superior. A teologia usa a razão para expor o conteúdo da fé ou evitar os erros; se a razão está de acordo com a fé, é porque é verdadeira, pois a verdade não pode contradizer a verdade. Mas a verdade da filosofia não se baseia na fé.
- O tomismo.
Agostinianos de todos os tempos sempre criticaram tomismo como paganização do cristianismo, repreendendo-lhe o exagero na confiança à razão. Se uma filosofia é verdadeira, é por ser racional. Se for racional, não é por ser cristã. Deve-se escolher, então, entre a razão e a fé, ou então o tomismo não passaria de um aristotelismo corrigido, segundo a razão e não segundo a fé. A atitude racionalista dos neoescolásticos tem como consequência lógica a negação pura e simples da noção de filosofia cristã.
“ O agostinismo aceita uma filosofia cristã, contanto que ela se contente em ser cristã e renuncie a ser uma ffilosofia; o neotomismo aceita uma filosofia cristã, contanto que se contente a ser uma filosofia e renuncie a ser cristã: o mais simples não seria dissociar essas duas noções, a filosofia com a razão e o cristianismo com a religião?”
Gilson, EFM, pg. 14
- Negação da filosofia cristã partindo do fato que o Evangelho não tem nenhum conteúdo especulativo.
O que seria conteúdo especulativo? Teríamos que desconsiderar os padres apostólicos, a primeira carta de João, o evangelho de João e a doutrina do verbo, a pregação de Jesus sobre o Pai Celeste. Se não há filosofia na Escritura, nada impede, a priori, que a Escritura não tenha influenciado a filosofia.
- Uma possibilidade histórica.
Filosofias produzidas após o período medieval que mostram a plausibilidade de uma intervenção do cristianismo no curso da história da filosofia ( a filosofia não teria passado, direto, dos gregos aos modernos):
1) Descartes: preocupação com as provas da existência de Deus e a noção de alma.
2) Malebranche: reivindica Aostinho e critica a Escolástica não por ser racionalista, mas por ser pouco religiosa.
3) Leibniz, Kant: especulações metafísicas segundo a agenda do cristianismo.
4) Montague: propõe substituir o folclore da Bíblia cristã com um conhecimento que já estava presente em são João e são Paulo (“o espírito de Deus como força e luz, e glória além do que tínhamos tido).
- Conclusão:
Há razões históricas para pôr em dúvida a separação entre filosofia e religião após a Idade Média. Então, ou acreditamos que, um dia, a Metafísica cairá em desuso ou continuará ainda por muito tempo. A primeira tarefa é perguntar aos prórios medievais que benefício traria para a razão a inspiração na Bíblia e no Evangelho.