A questão 86 completa a discussão sobre o conhecimento que o intelecto pode ter das coisas materiais. A questão é sobre o que realmente conhecemos das coisas materiais e estabelece, dessa forma, os limites do conhecimento intelectual sobre o mundo. Os quatro artigos em que se subdivide essa questão respondem negativamente às questões propostas.
Primeiro, o intelecto não conhece o singular e sim o universal. Nosso conhecimento intelectual dos singulares é um conhecimento indireto. Vale destacar nessa questão a importante distinção aristotélica entre o que é mais conhecido e universal em si e quanto a nós, especialmente utilizada no livro I da Física.
Segundo, o intelecto não conhece o infinito em ato ou hábito, pelo simples fato de que não há infinito em ato. Não conhecemos Deus diretamente, mas apenas os seus efeitos, uma vez que Ele é infinito. O infinito mais próximo de nós é a série infinita dos números, mas só temos um conhecimento confuso da série, não determinado.
Terceiro, o intelecto não conhece em si mesmo o contingente, pois o contingente é singular e o intelecto não conhece os singulares. Considerando, porém, as coisas sobre as quais se formam as noções universais, do mesmo modo como o intelecto conhece o singular indiretamente, também conhece o contingente.
Quarto, o intelecto não conhece o futuro em si mesmo, mas apenas em suas “sementes”. Há aqui uma diferença entre fatos necessários e contingentes. O conhecimento dos futuros contingentes pertence a Deus apenas. O conhecimento do futuro dos eventos necessários, dada a ordem do mundo, também é um conhecimento potencial, não em ato.