O problema do mal
Sharon Kaye
Um dos tópicos favoritos de Agostinho, que ele revisa com frequência, é o problema do sofrimento. Também conhecido como o problema do mal, se origina de uma profunda e difícil questão com a qual todo ser humano se depara em algum momento da vida: por que coisas ruins acontecem com pessoas boas?
A colocação em abstrato não parece significar tanto assim. Para perceber o seu significado é preciso voltar a algum tempo em que você ou alguém que você ama passou por alguma experiência de sofrimento, ocasionado talvez por um acidente, uma doença, a crueldade de alguém ou tudo isso junto.
Como exemplo, consideremos o caso de abuso sexual contra uma criança ocorrido em Burbank, na Califórnia, tal como foi reportado pelos jornais, em dezembro de 2000. Policiais encontraram uma garota de doze anos, que vivia em condições de escravidão por pelo menos dois anos. A garota estava tão desnutrida que aparentava ter apenas sete ou oito anos. “Não havia parte de seu corpo que não estivesse machucada, cortada ou quebrada”, disse o oficial de investigação. “Quando encontramos pessoas nessas condições, elas geralmente estão mortas”.
Talvez um caso como esse fosse mais fácil de entender se fosse o único de seu tipo. No entanto, quando paramos para considerá-lo, percebemos que o abuso de crianças ocorre todo santo dia em toda cidade de qualquer país do mundo.
Pensar em coisas assim é extremamente depressivo, mas é o único meio de entender a natureza do problema do sofrimento. Em tal situação, tudo que se pode fazer é perguntar “por quê?”. Por que a garotinha de Burbank tinha que sofrer tanto? Não parece justo se consideramos que ela era apenas uma criança inocente. Se alguém deve sofrer que sejam os culpados desse crime terrível. Mesmo assim,dificilmente, eles sofreriam como ela!
Vejamos. Se esse mundo não passa de um acidente, e não existe Deus, então o problema do sofrimento é facilmente solucionado. Coisas ruins acontecem com pessoas boas e com pessoas ruins ao acaso. Não há ninguém lá fora para assegurar que os inocentes estão protegidos e os culpados serão castigados.
Mas, se existe Deus, então o problema do sofrimento não é tão fácil de resolver. Pois supomos que Deus está nos assistindo e ouve as nossas orações. Como ele pode permitir que a garota de Burbank e outras pessoas como ela viessem a sofrer tanto? Quão difícil para Ele deve ser resgatá-la? Se nós esperamos que os pais cuidem de seus filhos, a fortiori, deveríamos esperar que Deus cuide de sua Criação.
O problema do sofrimento era especialmente desafiador para Agostinho, uma vez que era um neoplatônico. Lembremos que, no Timeu, Platão argumenta que a razão pura pode ser usada para descobrir verdades a respeito do mundo porque o mundo está ordenado segundo uma perfeição divina. Mas se olhamos em volta e vemos todo o sofrimento do mundo, é difícil ver qualquer evidência de perfeição divina. Mas se o mundo não for ordenado segundo a perfeição divina, a mente sozinha não poderia descobrir verdades a respeito dele.
Agostinho viveu no período do declínio e queda do Império Romano, teve, por causa disso, muitas experiências de sofrimento, pessoalmente e com as pessoas ao redor de si. Por exemplo, o seu filho amado Adeodato, morreu aos 16 anos de idade. Agostinho pretendia acreditar em Deus e de fato acreditava, mas às vezes lhe parecia que, se deus existe realmente, o mundo poderia ser um lugar muito melhor. O cético dentro dele insistia em ver na injusta distribuição de sofrimento e alegria no mundo uma prova contra a existência de Deus.
A solução de Agostinho
Bem cedo em sua carreira, Agostinho desenvolveu um argumento para mostrar que a premissa (5) [Se Deus sabe sobre o sofrimento e se não quer que as pessoas sofram e se é capaz de evitá-lo, então não deveria haver sofrimento] é incorreta. Para reprovar uma proposição condicional, basta mostrar que o antecedente pode ser verdadeiro e o consequente, falso. Em outras palavras, deve-se mostrar que Deus pode saber sobre o sofrimento, pode não querer que as pessoas sofram e pode ser capaz de evitá-lo, e ainda assim não o evite. Agostinho imagina que Deus tenha uma boa razão para permitir o sofrimento.
A primeira ideia de Agostinho é que Deus tem de permitir o sofrimento a fim de preservar a liberdade humana. Deus poderia eliminar uma porção de sofrimento impedindo que os seres humanos fossem cruéis uns com os outros. Desapareceriam da face da Terra, assim, o sequestro, a guerra, a tortura. Mas essas são coisas que os seres humanos escolhem fazer livremente. Assim, para evitá-las, Ele deveria eliminar o livre arbítrio. Mas se Ele fizesse isso, os seres humanos não seriam melhores que os animais ou que robôs. Deus julga que a liberdade é tão valiosa que vale o preço de alguma crueldade que algumas pessoas escolhem fazer. Essa solução ao problema do sofrimento ficou conhecida como a defesa do livre arbítrio e é ainda hoje largamente aceita.
Agostinho percebeu, contudo, que essa solução é, em si mesma, inadequada. Há dois tipos de mal que os seres humanos tem que suportar: o mal natural e as ações más. A defesa do livre arbítrio explica porque Deus permite que as pessoas cometam ações más, mas nada diz a respeito dos males naturais, tais como doenças, furacões, incêndios e outros eventos inevitáveis. Além disso, voltemos à garota de Burbank. Você acredita realmente que as pessoas que abusaram dela por dois anos estavam agindo segundo o livre arbítrio ou você pensa que elas deviam ser mentalmente doentes? Doenças mentais geralmente são causadas por fatores genéticos e estão além de nosso controle e milhões de pessoas sofrem terrivelmente por causa disso, direta ou indiretamente. Deus poderia eliminar a doença mental e fazer milhões de pessoas felizes sem interferir no livre arbítrio.
Ao reconhecer isso, Agostinho sentiu necessidade de acrescentar algo à sua defesa do livre arbítrio. Ele sustenta que, enquanto os atos maus são resultado livre arbítrio, os males naturais são a punição divina pelos nossos atos maus. Em outras palavras, deus usaria furacões, doenças, incêndios, etc. Para nos fazer pagar por nossas más escolhas. E nós não pagamos como indivíduos, mas sim como grupo. A humanidade peca, a humanidade deve pagar. A punição não precisa concordar com um pecador individual.
Esta é a única maneira de explicar casos como oda garota de Burbank. Não há como ela ter cometido um mal tão grande em sua curta existência a fim de merecer uma punição tão grande. Assim, ela deve estar pagando pelo mal de outrem. Como isso pode ser justo? Agostinho sustenta que, pelo fato de os seres humanos serem filhos de Deus, todos nós somos irmão e irmãs, nossas almas estão inextricavelmente ligadas, unidas. Temos, por isso, que compartilhar responsabilidades uns com os outros.
Suponhamos que Agostinho esteja correto e que o sofrimento deve existir porque o pecado existe. A questão permanece: por que Deus criou pecadores, afinal? Ele poderia ter se limitado a criar um mundo só de anjos, como o arcanjo Miguel, que é, ao mesmo tempo, livre e bom. De acordo com a tradição, Miguel é tão inteligente e forte que sempre faz a coisa certa. Ao invés de criar um mundo cheio de criaturas como Miguel, Deus povoou o mundo de seres humanos estúpidos e fracos, sujeito a doenças mentais e outras falhas que os levam a pecar. Por que Ele fez isso?
Na passagem abaixo, tirada do texto Sobre o Livre Arbítrio, Agostinho argumenta que Deus tem uma boa razão para ter criado pecadores.
Infelicidade
“Alguém poderia, talvez, dizer: “Não seria terrivelmente difícil ou problemático para um Deus onipotente dispor todas as suas criaturas numa ordem tal que nenhuma delas pudesse ser infeliz. Pois, se ele é onipotente, não lhe deve faltar poder para fazer isso, e se ele é bom ele não teria ciúme da felicidade de suas criaturas”
Eu responderia que a ordem da criação vai do mais alto ao mais baixo por graus adequados. É pura maldade achar que algo na criação deveria ou não deveria ser desta ou daquela maneira ou que nem deveria existir. É um erro querer que uma coisa seja como uma outra coisa que lhe é superior. A coisa superior já existe de tal modo que seria errado acrescentar-lhe algo, uma vez que já é perfeita. Contudo, se alguém diz que tal coisa deveria ser como aquela, ele quer acrescentar algo ao que é superior e perfeito, sendo assim imoderado e injusto. Ou então deseja destruir a criatura inferior, mostrando-se assim cruel e malvado.
Mas aquele que diz que tal coisa não deveria existir não é menos malvado, pois a coisa que ele não quer que exista também merece ser honrada. Por exemplo, alguém poderia dizer: 'a Lua não deveria existir, pois ela não é tão brilhante quanto a Sol'. Ao mesmo tempo, ele deve admitir que, mesmo a luz de uma lamparina, que não chega nem perto do Sol em luminosidade,é bela dentro de sua própria classe. Ela adorna a escuridão terrestre e é útil à noite, por todas essas razões ela merece consideração em seu modo de ser. Como alguém poderia querer que Lua não existisse se riria de si mesmo por supor que as lamparinas não deveriam existir. Mas talvez, ao invés de querer que a Lua não exista, ele pretenda que a lua seja tão brilhante como o Sol. Isso seria o mesmo que dizer: ' a lua não deve existir, devem existir dois sóis. Deste modo, ele comete dois enganos. Um por desejar outro sol, tentando acrescentar algo à perfeição criada, outro por querer se livrar da lua, tentando diminuir a perfeição criada.
Quando observamos as diferenças entre os objetos materiais e percebemos que uns são mais brilhantes do que outros, seria errado querer se livrar dos mais escuros ou querer que todos fossem igualmente brilhantes. Se, ao invés disso, pensarmos na perfeição do todo, veremos que as diferenças na luminosidade contribuem para o universo ser mais perfeito. O universo não seria perfeito se a existência das coisas maiores excluísse a existência das menores. Do mesmo modo se considerarmos as diferenças entre as almas, descobriremos que a infelicidade que te faz sofrer também contribui ao assegurar que isso inclui mesmo aquelas almas que merecem ser infelizes pois desejaram ser pecadoras. Deus está plenamente justificado por ter feito tais almas, assim como merece ser honrado por ter feito outras criaturas ainda mais inferiores do que as almas infelizes.”
Nesta passagem, Agostinho transformou a ideia platônica de perfeição divina de parte do problema em parte da solução. A explicação por trás do enigmático fenômeno do mal é que ele, em última análise, contribui para a perfeição do universo.
Agostinho sustenta sua opinião com base em um argumento por analogia. Um argumento por analogia, pode ser representado da seguinte forma:
1.A está para B assim como C está para D
2.A tem a característica P com relação a B
3.Portanto, C tem a característica P com relação a D.
Apesar desse argumento ser dedutivamente válido, ele é, de certo modo, circular, pois a premissa (1) é virtualmente equivalente à conclusão. Contudo, reconstruindo o argumento dessa maneira, podemos, pelo menos, ver o que o autor está dizendo. Assim, o argumento pose ser assim reconstruído.
1. A Lua está para o Sol assim como as almas infelizes para com as almas felizes.
2.O Sol não ocuparia um lugar perfeito no universo se a Lua não existisse.
3.Logo, as almas felizes não ocupariam um lugar perfeito no universo sem as almas infelizes.
Um universo perfeito requer a existência de felicidade e de infelicidade.
Note-se a crucial aparição da grande cadeia do ser, mais uma vez, nessa passagem. Agostinho se apoia na tese segundo a qual a perfeição requer a existência de graus de bondade. Isso parece verdadeiro? Consideremos um contra exemplo, digamos o caso de uma rotina de solo em ginástica olímpica. O que um ginasta precisa fazer para atingir um escore perfeito? Certamente a inclusão de movimentos que não sejam muito bons vai arruinar as chances de um escore perfeito.
Agostinho poderia responder a essa objeção apontando para o fato de que uma perfeita rotina em ginástica olímpica inclui, de fato, coisas maiores e menores. A primeira cambalhota do ginasta poderia ser executada por qualquer amador enquanto o duplo giro carpado frontal só pode ser executado por um atleta profissional devidamente treinado. O fato de a cambalhota ser mais fácil do que o giro não significa que é imperfeita. Pelo contrário, os bens menores são necessário para complementar os maiores.
Esta objeção e resposta mostram que Agostinho pode sustentar uma posição consistente apartir da qual ele pode abraçar a tese antiintuitiva segundo a qual a infelicidade não é realmente uma coisa ruim.
A defesa de Deus
Agostinho voltou ao problema do sofrimento muitas vezes no decurso de sua carreira na medida em que ele mesmo jamais ficou plenamente satisfeito com a solução que ele dera. Na passagem a seguir, extraída da obra Catecismo sobre a fé, a esperança e o amor, ele tenta responder à seguinte questão: ao criar pecadores, Deus é responsável pelo mal?
O mal não é uma coisa
“Todas as coisas foram criadas por Deus e tudo o que Deus criou é bom. Assim, o que é isto que nós chamamos “o mal”? Nos corpos dos animais, “doença” e “ferimentos” significa a falta de saúde. Pois assim que o animal é curado, a doença e a ferida não vão embora existir em outro lugar. A carne do animal é uma substância. A ferida ou a doença não é, em si mesmo uma substância, mas um defeito na substância. Do mesmo modo, a alma de um ser humano é uma substância, enquanto o vício é um defeito da alma. Isto é evidente se pensarmos que, quando o vício deixa a alma, ele não pode existir em nenhum outro lugar. Uma vez que o mal não é uma substância, mas um defeito na substância, ele não foi criado por Deus.
Todas as coisas que existem, contudo, são boas em si mesmas, visto que o Criador de todas elas é supremamente bom. Mas dado o fato de elas não serem, como seu Criador, supremamente e imutavelmente boas, o seu bem pode ser diminuído ou aumentado. O mal é a desintegração da bondade. A alma pode se desintegrar até certo ponto sem deixar de existir totalmente. Consideremos que o tipo de ser de que estamos falando, ele é tal que sua bondade não pode ser totalmente destruída sem destruir o próprio ser. A razão é que a bondade é ser e ser é bondade.
Uma natureza incorrupta é justamente admirada. Se, mais ainda, ela for incorruptível, é indubitavelmente mais valiosa. Quando é corrompida, contudo, a sua corrupção é um mal, pois está diminuída de algum de seus bens. Se não estiver desprovida de bem algum, então não recebeu nenhum dano, mas se recebeu algum dano, está desprovida de algum bem. Portanto, enquanto um ser está em processo de corrupção, há nele algum bem do qual ele está sendo privado. Se uma parte do ser permanece que não pode ser corrompida, este será, certamente um ser incorruptível. Desta maneira, o processo de corrupção acabará por revelar esse grande bem. Mas se ele for total e completamente consumido pela corrupção, não restará nenhum bem, porque não haverá nenhum ser. A corrupção só poderá consumir o bem se consumir o ser.
Todo ser, portanto, é bom – um grande bem se não puder ser corrompido, um bem menor se puder sê-lo. Em todo caso, só um tolo ou idiota negaria que é um bem. E se ele for totalmente consumido pela corrupção, então a corrupção mesma deve cessar de existir, pois não restou ser algum no qual ele possa residir.”
Nesta passagem, Agostinho sustenta que Deus não criou o mal, pois criou apenas seres e o mal não é um ser e sim uma falta de ser. A primeira coisa a notar é que essa passagem adota o mesmo tom beligerante da precedente. No fim da passagem Agostinho declara que “apenas um idiota ou um tolo” negaria o que ele está afirmando. Do mesmo modo, na passagem anterior, Agostinho tinha dito que “somente por maldade ou desprezo” alguém defenderia a visão contrária a que ele defende.
No capítulo anterior também vimos que Anselmo se refere ao seu oponente como sendo “um tolo”. Enquanto o uso que Anselmo fez desse termo pejorativo pode ser desculpado como alusão à própria Bíblia, o uso pejorativo que Agostinho faz destes termos podem facilmente ser interpretados como instâncias da falácia ad hominem. Ad hominem é uma expressão latina que significa “contra o homem”, a falácia ocorre quando o autor tenta vencer a argumentação desacreditando seja alguma característica do oponente seja mesmo a sua reputação. Isso é parecido com a difamação política. Como bispo de Hipona, Agostinho vivia bastante pressionado por brigas políticas e isso explica que não é surpresa que de vez em quando o vemos se utilizando de tais táticas.
Olhando por outro lado, no entanto, vemos que Agostinho mais uma vez usa analogia para defender seu ponto de vista: a doença é para o corpo o que o mal é para a alma. Doença é o nome para a desintegração do corpo assim como o mal é o nome para a desintegração da alma.
Agostinho procede segundo modus tollens, tal como no esquema:
1.Alguém só é responsável por algo caso o tenha feito.
2.Ora, Deus não fez o mal
3.Logo, Deus não é responsável pelo mal.
A premissa (1) é plausível? Deve-se sustentar que os seres humanos são responsáveis apenas pelo que fazem ou seriam responsáveis também por aquilo que falham em fazer? Podemos usar outra analogia para explorar essa questão.
Suponha que você convidou uma família inteira para jantar. Você trabalhou o dia todo na cozinha para fazer um elaborado prato à base de frango. Seus convidados devoram tudo. O único problema é que você não cozinho o frango suficientemente e todos são infectados por salmonela. Logo, todos ficam muito doente e, inclusive, um deles morre. Você se sentiria mal ou você acha que deveria ser recompensado pela quantidade de comida que você fez, ao invés de ser culpado pelo pouco que você não fez? Suponha também que a família do morto cobre de você as despesas médicas e pelo sofrimento e trauma pelo qual eles passaram por causa de seu mal cozido jantar? Faria sentido argumentar que você não é culpado pelo que faltou fazer no jantar? Seria difícil.
Agostinho poderia responder a essa objeção insistindo que não há analogia entre o universo criado por Deus e o seu jantar. No caso de seu jantar é possível, e espera-se isso, que ninguém seja envenenado pela comida. Não é claro, no entanto que tal possibilidade ou tal esperança se aplique ao universo criado. Em primeiro lugar, Agostinho poderia negar a possibilidade de um universo livre de todo o mal da seguinte maneira: Dado que Deus deve criar com perfeição e dado que a perfeição exige graus de bondade maires e menores e que graus menores de bondade permitem o mal, Deus deve permitir o mal. Em segundo lugar, agostinho poderia negar que seja razoável que se possa ter qualquer expectativa com relação a Deus. Pois Deus é infinitamente mais sábio do que nós, Ele pode ter razões para permitir o mal que nós simplesmente não podemos entender. Ou simplesmente, Ele não nos deve qualquer explicação.
Há outro problema ainda com a comparação agostiniana entre a doença e o mal. Uma doença é uma coisa que acontece com a pessoa, o mal é uma coisa que a pessoa pode fazer acontecer.
Consideremos um caso clássico de doença, o câncer. Ele é tipicamente causado por predisposições genéticas e/ou contaminação ambiental. Um pessoa com câncer é considerada vítima, e talvez um sobrevivente, de uma desgraça terrível. Normalmente, ninguém culpa um paciente de câncer de ter câncer. Podemos culpar um homem que teve câncer de pulmão depois de fumar por muitos anos, dado que el conhecia o risco. Mas também reconhecemos que fumar é um vício extremamente difícil de romper. Somos mais propensos a sentir muito por ele do que a culpá-lo.
Agora, consideremos um estupro, exemplo clássico de mal. Casos típicos de estupro envolvem um homem forçando uma mulher que ele conhece a fazer sexo, geralmente com a ajuda de armas ou drogas. Normalmente não reconhecemos o estuprador como vítima. Normalmente o consideramos por fazer uma escolha ruim e não sentimos pena dele mesmo se soubéssemos que ele tem problemas em relacionar-se normalmente com uma mulher.
Ao comparar o mal com a doença, Agostinho sugere que os seres humanos não são capazes de evitar que suas almas sejam corrompidas. Nem isso é resultado de uma analogia enganadora. Em toda parte de sua obra, Agostinho começa a ver as más escolhas que as pessoas fazem como produto daquilo que ele chama de “ignorância e dificuldade”. Ignorância é quando você não sabe a coisa certa a fazer e dificuldade é quando você não é capaz de fazer a coisa certa, mesmo sabendo qual é. À luz desse obstáculo, não é surpreendente que os seres humanos sejam pecadores. Ao mesmo tempo que isso explica bem o triste estado do mundo, também destrói a escolha. Apesar de Agostinho ter sustentado durante toda a sua vida uma fé inabalável no livre arbítrio, muitos de seus leitores acham essa posição inconsistente com seus escritos. Alguns pensadores medievais posteriores procuraram corrigir a posição de Agostinho com relação a esse tema.
O Libertarianismo de Olivi
O O libertarianismo metafísico é uma concepção segundo a qual os seres humanos são responsáveis por suas ações enquanto indivíduos porque eles tem o livre arbítrio, definido como capacidade de escolher de tal modo que sempre lhes seria possível escolher de outro modo. Ele se opõe ao determinismo, de acordo com o qual os seres humanos não tem livre arbítrio, mas são determinados por condições antecedentes (tais como Deus ou a natureza ou fatores ambientais) para escolher de um modo enquanto oposto a outro modo.
Suponha que João coma um bolinho. De acordo com o determinismo condições antecedentes o levaram a fazer isso. Assim, ele jamais poderia ter feito de outro modo, exceto se as condições antecedentes fossem diferentes. Dadas as mesmas condições, ele não poderia deixar de comer o bolinho. Os deterministas se dão por satisfeitos em concluir que a liberdade não passa de ilusão.
O compatibilismo é uma versão de determinismo de acordo com a qual o ser determinado a fazer o que fazemos é compatível na medida em que as condições antecedentes que nos levam a fazer o que fazemos incluem nossas próprias escolhas. Os adeptos desta opinião sustentam que as escolhas que nós fazemos são livres, mesmo que não possamos escolher de modo diferente dadas as mesmas condições antecedentes. Segundo essa opinião, João escolhe comer o bolinho, pois o seu desejo de fazer isso pesou mais que todas as demais considerações naquele momento. De acordo com o compatibilismo, nossas escolhas são sempre determinadas por nossos desejos mais fortes.
O libertarianismo metafísico se opõe tanto ao determinismo como ao compatibilismo, na medida em que considera que os seres humanos são capazes de agir livremente contra os seus desejos mais fortes. No exemplo considerado, é claro que João poderia deixar de comer o bolinho mesmo permanecendo as mesmas condições antecedentes. Os desejos influenciam nossas escolhas, mas não são a causa delas, ao contrário, nossas ações são causadas pela vontade que é, em si mesma, uma causa incausada, isso quer dizer que a vontade é um poder independente, mais forte do que qualquer fator condicionante. Essa noção sobre o livre arbítrio capacita o libertarianismo a atribuir uma concepção muito forte de responsabilidade individual aos seres humanos: o que nós fazemos ou deixamos de fazer não pode ser atribuído a Deus ou à natureza ou mesmo a fatores ambientais.
O primeiro filósofo a apresentar uma clara defesa desse ponto de vista foi Pedro de João Olívio. Olívio diz ser um admirador de Agostinho e despreza Aristóteles. Contudo, acredita que Agostinho tenha se distanciado muito do livre arbítrio em suas investigações sobre o problema do sofrimento. Na seguinte passagem, Olivio volta ao empirismo a fim de restaurar a liberdade humana em sua forma mais pura.
O livre arbítrio é observável
“ Nós podemos observar a liberdade da vontade através da experiência interna. Quando há certo número de coisas iguais que são igualmente úteis, nada pode explicar a adoção pela vontade de uma ou de outra dessas coisas exceto a liberdade pela qual alguém é capaz de fazer isto ou aquilo. Suponhamos que há dois pedaços de fruta ou duas pessoas que são similares e equivalentes sob qualquer aspecto. Contundo, a vontade se dirigirá a apenas uma das duas coisas e deixará a outra.
Pode-se objetar que o mesmo pode ser dito dos animais quando eles escolhem uma de duas coisas que são igualmente desejáveis e igualmente acessíveis ou inacessíveis a eles. Mas é evidente que os casos não são similares, pois os animais não deliberam sobre a igualdade da escolha nem fazem juízos como os seres humanos.
Acontece geralmente o fato de querermos ficar com uma entre duas moedas. Deliberamos e asseveramos que existe uma boa e justa razão para ficarmos com uma ao invés da outra. Em tais circunstâncias , nós pensamos que somos capazes de ficar com uma das moedas tanto quanto com a outra. Assim, quando escolhemos ficar com uma, sentimos manifestamente que fazemos isso a partir somente da liberdade da vontade e não de uma satisfação maior por uma como oposta a outra.
A objeção pode persistir, contudo: o que determina o apetite de um animal por um objeto ao invés de outro?
Apesar de ser difícil dar uma boa explicação para isso, pode-se dizer que o apetite e os sentidos do animal estão em contínuo movimento ou em contínua agitação como se ele fosse empurrado pela natureza. Dadas essas circunstâncias, é dificilmente possível para o momento ser totalmente uniforme. Por essa razão, a apreensão do objeto pelo animal e o apetite que ele sente por tal objeto varia com facilidade. Ele sempre encontrará um objeto mais satisfatório ou mais fácil de obter do que outro.
O ato da vontade, ao contrário, é inteiramente indeterminado. Suponha que, no momento de agir, você está inclinado para um ato da mesma maneira que um animal está inclinado para seus atos. Então, uma vez que você tenha começado a agir, você não deveria sentir em si um certo poder de não fazer o que você está prestes a fazer. É inegável que todas as pessoas sentem, dentro de si, um poder que não está determinado, de modo que, ao realizar algo sentem que são capazes de deixar de fazê-lo e quando deixam de fazer algo, sentem que são capazes de realizá-lo.”
Para Olívio, o conhecimento do livre arbítrio vem de dentro de nós. Contudo, gostaríamos de não considerar isto como uma prova inatista, pois liga-se mais à observação do que à razão. De acordo com o empirismo, o conhecimento se origina da observação do mundo. Olívio sugere que o trabalho da mente é parte do mundo que pode ser observado.
O argumento de Olívio pode ser reconstruído com o uso do modus tollens, como se segue:
1.Se os seres humanos não fossem livres, então, quando fossem agir, não sentiriam que são capazes de não
agir.
2.Ora, quando estamos para agir, sentimos que somos capazes de não fazer o que pretendemos.
3.Logo, os seres humanos são livres.
Olívio utiliza os exemplos empíricos de escolher entre frutas, pessoas ou moedas para sustentar a premissa (2). Ele convida seus leitores a consultar a sua própria experiência para ver se é verdade que eles são capazes de selecionar um ou outro dentre aqueles objetos. Este argumento ficou conhecido como argumento de introspecção, tendo sido repetido muitas vezes na história da filosofia.
A utilização de exemplos empíricos em que se deve selecionar entre opções equivalentes se justifica pelo fato de,na opinião de Olívio, é nestas condições em que o livre arbítrio aprece mais prontamente. O exemplo de selecionar entre uma moeda e uma barata não funcionaria bem o livre arbítrio, pois a maioria das pessoas estaria fortemente inclinada contra a barata e a favor da moeda. Olivio fica satisfeito com a garantia de que algumas vezes nossas inclinações sejam suficientes para causar nossas ações sem qualquer livre arbítrio. Em tais ocasiões, ele diz, somos “arrastados para a ação”. Os animais, ele assevera, são sempre determinados desse modo em suas ações. Mas os seres humanos tem o poder de pensar o que os capacita a deliberar. Nos casos em que nossas inclinações não sejam tão poderosas, o livre arbítrio nos ajuda a escolher de outro modo.
É difícil negar a premissa (2). A maior parte das pessoas acha que, em caso de deliberação, els poderiam fazer de outro modo. A premissa (1), no entanto é altamente controvertida. É verdade mesmo que nós não sentiríamos isso a menos que fôssemos livres? Isto é, poderia haver alguma outra explicação para o fato de que a capacidade de delibrar nos dá a impressão de que poderíamos fazer diferente?
O asno de Buridano
Durante o século XIV, alguns filósofos se contentavam em defender o compatibilismo e mesmo o determinismo, desistindo do livre arbítrio, ainda que, verbalmente, tivessem de sustentá-lo (pois trata-se quase de um dogma de doutrina). João Buridano apresenta uma explicação para a deliberação que explica o sentimento de indeterminação sem fazer qualquer apelo ao livre arbítrio.
Segundo Buridano, a vontade nada mais é do que um outro nome para o intelecto. O intelecto é responsável por mover os seres humanos a realizar ações deliberadamente e é sempre motivado por razões. Se duas opções se apresentam, sempre haverá razões para cada uma. O trabalho do intelecto é selecionar a opção que está justificada pelas melhores razões. Quando as coisas ocorrem sem percalços nós nem sequer sentimos o momento de hesitação que, segundo Olívio, é a marca do livre arbítrio.
Raramente, no entanto, as coisas transcorrem sem percalços, por causa do desejo. Suponha que você esteja decidindo como gastar o restante de seu tempo livre durante uma tarde. Você poderia fazer um pouco de ginástica ou poderia assistir o seu programa de TV favorito. Você tem muitas razões para fazer o exercício e quase nenhuma para assistir TV. No entanto, suponhamos que você queira assistir TV e não queira fazer ginástica. Você adia a decisão por algum tempo a fim de decidir. Então, alguém em sua casa liga a TV e, antes que você se dê conta, lá está você assistindo o seu programa, completamente esquecido da ginástica. Ao adiar a decisão e distrair a atenção, o desejo pode nos livrar dos ditames da razão. Assim, a ilusão do livre arbítrio não é nada mais do que um raciocínio defeituoso.
Olívio e seus seguidores achariam essa apresentação sobre a liberdade humana totalmente inadequada. Um desses seguidores, não se sabe exatamente qual, propôs uma experiência de pensamento para demonstrar o absurdo da opinião de Buridano, experiência que se tornou conhecido como o asno de Buridano.
Imagine um burro faminto colocado entre dois apetitosos montes de feno, dos quais ele está igualmente distante. O burro tem razão para se dirigir a um monte de feno, mas não tem razão para preferir um monte ao outro. Por falta de habilidade em desatar esse nó, o burro morre de fome. Ao fazer isso, o burro justifica a especial dignidade do ser humano. Colocados numa situação similar, nós não morreríamos de fome, pois o nosso livre arbítrio nos capacita a quebrar o laço sem uma razão para isso.
Note que o experimento de razão é um cenário ficcional desenhado a fim de testar nossas intuições a respeito de uma proposição controversa. Não vale objetar que um burro jamais se encontraria em tal situação na vida real. O ponto desse cenário é dar uma imagem fictícia do que a hipótese do livre arbítrio tenciona efetuar. Sem dúvida, hoje nós transformaríamos o asno de Buridano no computador de Buridano: o que aconteceria se você programasse um computador com instruções conflituosas? O computador travaria, quem sabe até se desligaria. Os seres humanos, ao contrário, podem lidar facilmente com situações conflitivas, nós podemos escolher.
Olívio está determinado a estabelecer esse ponto pois ele acha isso necessário a fim de se atribuir responsabilidade moral. Na sua opinião é como se tivéssemos um diabinho sentado em um de nossos ombros e um anjo no outro, cada um sussurrando em nossos ouvidos a sua opinião, segundo uma popular ilustração. Apesar das instruções desses dois personagens serem completamente diferentes e mesmo opostas entre si, nos sentimos divididos entre ambas. O diabinho assim como a anjo nos dão razões igualmente convincentes, apesar de que uma é ruim e a outra é boa. Olívio considera que nós só poderemos ser responsabilizados por nossa escolha se estivermos conscientes das opções disponíveis e formos capazes de seguir qualquer uma das duas. Nem Buridano nem Agostinho concordariam com isso.
Na passagem a seguir, Olívio explica a diferença entre um ser humano e um asno.
O livre arbítrio serve necessariamente à virtude ou ao vício
“O ato de querer deve ser indeterminado, pois ele pode ser bom ou mal, virtuoso ou vicioso. Alguns dizem que o ato de vontade é normalmente orientado para a virtude e o vício não acontece a menos que o desejo sensual bloqueie a razão. Mas isso não é plausível. Uma ação acontece naturalmente ou livremente. Se acontece naturalmente, não é viciosa pois foi arrastada em direção ao mal necessariamente. Neste caso, teríamos que atribuir o vício à sensualidade ao invés de atribuí-lo à vontade. Mas quem diria que o apetite imoderado, o desejo desordenado por conforto e glória, o ódio pelas pessoas boas e mesmo por Deus não se originam da vontade e sim da violência da sensualidade? Se, por outro lado, a vontade é indeterminada quanto às boas e más açõese igualmente suscetível à virtude ou ao vício, então a determinação não pode ser dada nem pelo objeto nem pela sensualidade, pelo menos não de modo necessário. Portanto, a vontade deve ter a determinação a a partir de si mesmo, ela deve se auto determinar. Mas ela não pode se auto determinar se não tiver o poder livre de fazer uma coisa ou outra.
É evidente, portanto, que o determinismo é um erro, na medida em que destrói todo bem dos seres humanos e de Deus, na medida em que permite todo crime e pecado. Nem isso é de espantar uma vez que, como eu mostrei, o determinismo nos reduz a bestas intelectuais.”
Na opinião de Olívio, Deus seria injusto em nos punir se nós não fôssemos capazes de evitar o pecado.
É claro que compatibilistas e deterministas tem outras maneiras de explicar a responsabilidade moral. Eles sustentariam que é justo deter alguém por fazer o mal, mesmo que tal pessoa não pudesse deixar de fazê-lo. Consideremos o caso do ladrão compulsivo. O fato de a pessoa ser incapaz de deixar de roubar não significa que devemos deixá-la continuar a fazer isso. Ela tem que ser parada e uma pena rígida pode ajudá-la a conter a sua compulsão ao roubo. Esta é uma concepção reformatória de justiça, de acordo com a qual o propósito da punição é evitar que o crime ocorra novamente. Compatibilistas e deterministas podem sustentar que é mais humano considerar o delito como produto das circunstâncias do que responsabilizar o livre arbítrio.
Contudo, há problemas com a ideia reformatória de justiça. O ladrão compulsivo pode sentir tanto prazer em roubar que nenhuma punição pode ser capaz de pará-lo. Ou então, ele pode acreditar que vai conseguir deixar de fazer isso da próxima vez. Além disso, com relação a crimes mais sérios como assassinato, uma única vez é suficiente para arruinar as vidas das pessoas envolvidas. Num crime passional, a repetição da ação pode nem mesmo ser o caso.
Os adeptos do libertarianismo metafísico parecem sustentar uma concepção retributiva de justiça, de acordo com a qual o propósito da punição é fazer o criminoso pagar pelo crime cometido. Não importa quão horríveis sejam as circunstâncias, o criminoso teria de ter escolhido agir de outro modo. Assim, seria justificável o sentimento que nos leva a sentir vergonha por aqueles que escolheram agir mal e admiração por aqueles que escolheram agir bem. O libertarianismo metafísico pode sustentar que, nas concepções compatibilista e determinista, ninguém merece crédito por nada.
O principal problema com a concepção retributiva de justiça é que ela é muito próxima da vingança, que é geralmente considerada como vício. Muitos argumentariam que é melhor cultivar atitudes de perdão do que ficar tentando encontrar correlações exatas de olho por olho, dente por dente.
O debate a respeito do livre arbítrio continua ativo e a sua relação com o problema do sofrimento complica ainda mais as coisas. Á primeira vista, parece que o livre arbítrio é necessário a fim de explicarmos o sofrimento que vemos em nossa volta. Num exame mais cuidadoso nos damos conta de que há mais sofrimento no mundo do que o livre arbítrio, sozinho, pode suportar. Por que deus permite isso? Agostinho sustenta que ele permite isso como punição aos nossos pecados. Mas se nossos pecados são o resultado de nossa natureza defeituosa, então parece que não podemos ser culpados. Todo o problema parece ser, então, sustentar a justiça divina e, ao mesmo tempo, o fato de que a responsabilidade requer o livre arbítrio.
Sharon Kaye, Medieval Philosophy – a begginer's guide. Oxford, Oneworld, 2008.